terça-feira, 19 de março de 2019

Quem é Quitéria?

     Vivenciar o teatro antropológico do Odin Teatret será sempre um desafio profundo que me obriga às reflexões profundas. Anterior à minha experiência inesquecível com Julia Varley e Eugenio Barba passei pelos sistemas propostos por Angel e Klauss Vianna e a Fondación Río Abierto, exigentes ao extremo para que sejamos corpos provocadores, super necessários nos períodos obscuros que estamos atravessando, que seguramente, será apenas um atravessamento. 
     A personagem Quitéria, arquétipo investigado e praticado pela carne que me constitui, traz a violência desmedida contra o feminino feminino, ambientada no século XVIII.
     Na pesquisa fui auxiliada pelas mentes abertas de historiadoras maranhenses, especialmente pela dedicação incansável de Maria da Glória Guimarães Correia. Glorinha, como é conhecida, me propiciou também um ensinamento para considerar nesta vida. Ao fazer contato com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul a chefe do departamento de história corrigiu meu pedido, para que me ajudassem com a pesquisa, indicando que procurasse aqui, na minha ilha predileta, a maior autoridade no assunto sobre mulheres trancafiadas de modo criminoso e forçado em nosso passado tristemente não reconhecido. Pobreza no pensamento que desconsidera que o melhor esteja em nossa aldeia, pedi desculpas pela ignorância, e retomei o contato com uma amiga de juventude artística. Torço para que estejamos juntas em novos processos.
     Quem estiver lendo informe-se sobre quem foi Quitéria, peça desculpas se não souber até agora quem é ela, e louve as produções maranhenses. Não se envergonhe em pedir desculpas.
Ensaio "Quitéria & Inês" (Marcos Caldas, 15/03/2019) 
  
                            

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

A luz da candeia


Espirais | EMEM 2005
Candeia acesa como conforto.
Retomada de antiga parceria.
Em períodos de degenerescência, quando atos malditos são impostos ao país e emanações terríveis se espalham, acontecem desgraças anunciadas e súbitas. Nesse turbilhão tenebroso chegou esta criatura, ela está aí na imagem de "Espirais', que apresentava em 2005 premonições sobre a realidade futura, agora presente.  
Práticas iniciais | Associação Cultural | foto Adriano Yasuhiro 

Tatiane, veio pé ante pé, mão sobre mão, para enfrentar a dor e o medo de “Quitéria & Inês”, arquétipos femininos encarnados em livro e espetáculo, mais um processo que cultua a dramaturgia da alteridade, dentro da proposta do Teatrodança de atingir um estado de real cooperação que acredita nas diferenças.

  

Júlia e Tatiane | texto encarnado


Assim, vamos compondo nossas criações, artistas que se misturam na mesma carne, e umas e outras são beneficiadas pelas trocas de seus saberes e fazeres. 
Mais seres virão por aí, já estão participando, mas, por enquanto, saudemos o sentimento feminino na Tatiane.
Ela traz a luz da candeia. 
Que fique acesa.                   


quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Morta de fome, mas consegui financiamento!


      Ora, ora.
 Sou diretora, atuadora, pesquisadora e educadora em coletivo que sobrevive por mais de três décadas em mercado ainda emergente para as artes do corpo porque acredito que as desilusões e os modismos não abatem a coletividade pela força de suas investigações.
 A construção de dramaturgias do corpo, nas cenas e nas pedagogias, como objeto das pesquisas do Grupo Teatrodança me fez sobreviver e configurar o erudito e o popular com a cultura assumindo concepções complementares.
 Digo que a estratégia inovadora para comportamentos pacíficos, ‘Meninilha’ e ‘Ilhadas', trazem organicidades que se encarnam para falar da violência contra o sentimento feminino, seja nos seres ou nas identidades transitórias. A trilogia se reporta não simplesmente ao gênero, e sim à emoção compassiva que está presente em todos os seres humanos. A perda irreparável deste sentimento nos faz mergulhar em mundos individualistas e perder a energia que move as ações criativas, afetivas e coletivas.
 No livro ‘LulaLivre’ o escritor Ferréz diz como a ‘boa artista morre de fome mas não lambe bota do estado’. Por isso entro em editais públicos. Minha alma permanece. A carne fica incólume.
 No Edital Prêmio Literário da Secretaria da Cultura do Maranhão a dramaturgia que se intitula com os nomes das mulheres trancafiadas e torturadas, as desgraçadas Quitéria e Inês, recebeu o financiamento para que a publicação do livro e a produção do espetáculo seja materializada. O mestre zen Kaz Sensei me ensinou como milagres acontecem a cada momento. Irei multiplicar o valor, embora esta ação precise se fortalecer urgentemente no ideal de nação.    
 Caríssimo Marc Ferréz, estou conseguindo salvar lembranças para as gerações posteriores. 
 Para que na lembrança delas as Quitérias e Inêses não se diluam. Quem sabe as Júlias fiquem na memória?    
Prêmio Apolônia Pinto-Peça Teatral 20/12/2018

Vamos ao prêmio 20/12/2018

Narrativas sobre a trilogia 20/12/2018
  

domingo, 25 de novembro de 2018

corpo_voz-crianças


Convite para apresentação de EP que será postado na plataforma Spotify  
Criançada com acesso livre!
Algumas respostas...

-Do que se trata o corpo_ voz- sonoridades para crianças?
Considerando a infância como dotada de inteligência criativa propomos o corpo que vivencia atuação com sonoridade. Com financiamento feito pelo próprio coletivo estamos gravando e mixando, com apoio do musicista João Simas, as composições musicais, especialmente de Eline Cunha, reconhecida guerreira da área sonora e integrante do Teatrodança desde 1998, presentes nos trabalhos “Bicho solto buriti bravo”, “O cerro do Jarau”, O Baile das Lavandeiras”, “Mundo imaginário de Juju Carrapeta”, e o pioneiro construído para infantes intitulado “Popotitodó”. Convidamos para que experimentem apresentação de EP na plataforma Spotify!                            
-Processo do registro das partituras de corpo e voz para crianças?
A ideia surgiu em janeiro quando vimos que “Bicho solto” estaria completando 20 anos da estreia no Rio de Janeiro. Percebemos a urgente necessidade de documentar os processos não como literatura dramatúrgica, como tenho realizado através da seleção em editais, mas postando em canal digital para que as crianças, e cuidadores, tenham livre acesso. Resgatamos as musicalidades, feitas novas partituras passamos para as práticas corporais, e convidamos mulheres que aceitaram nosso convite para trabalhar grátis em prol do bem comum. LABORARTE e BURITECO aceitaram carinhosamente as apresentações, e agora lá vamos nós com comidinhas veganas e regionais, brincadeiras e musicalidades para encantar as sensibilidades do corpo.   
                      

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Autenticidade imperativa


 
Nesta vida persisto como uma virose dançante. E ainda consigo forçar entendimentos para serem pensados. Por exemplo, quando trabalhei com Julia Varley, mestra maior do teatro antropológico, percebi sua briga pelo lugar feminino da dramaturgia, e comprei a briga. Basta observar na ilha onde escolhi viver até agora (períodos obscuros nos aguardam...)
Para sobreviver faço parcerias com quem aceita. Passe os olhos em nossa trajetória e vai encontrar artistas de variadas procedências e vivências. No próximo mês retornaremos ao LABORARTE, passos iniciais dados em 1977 quando estive na fundação, e agora pelas mãos de Rosa Reis e suas filhas multiculturais.    
No final dos anos 1990 fechei a Oficina do Corpo e corri mundos. De lá para cá trabalho em periferias. Quando a Oficina foi fechada coreografamos Vladimir Maiakovski para dizer como necessariamente todo dia o sol se levanta, e com Gregório de Matos montei o trabalho Espirais, 2004, considerando a cena para discussão dos problemas coletivos.
A tristeza em perceber atitudes de fuga, apatia, desmonte. Sem forças contra o poder do capital, que nos tornou um país dependente, leiloado, destruído, espoliado.
Na atualidade perseveramos vendo o martírio das culturas que salvam. O imaginário das crianças preservados, sem lamentações. Se somos embragadas hoje, amanhã se dança nua; se põe tarja se coreografa de novo. A cena para além da representação.
Minha compaixão irada vai quem produz mediocridades.   
Mulher bárbara é o nosso tempo que se abate sobre nós, na trilha de Christa Wolf, e sou uma. Porque virão outras depois de nós...

Janela Cultural bloco 1
https://www.youtube.com/watch?v=J0-iGaJSABA&t=41s

Janela Cultural bloco 2
https://www.youtube.com/watch?v=mR0RbAlDxK8&feature=youtu.be

Em agosto deste ano jupiteriano, como boa leonina, ganhei esta conversa registrada pela Universidade FM, a rádio que toca a nós todas.   



                     

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Que a caminhada não se acabe

Eline Cunha com Rebeca, Hospital Materno Infantil

Eu mesma, maracá e nenês
  












Na montagem ‘A terra chora’ relatamos o conviver, o estar junto ao coletivo Tremembé na sua faixa de terra no município de Raposa, região metropolitana da capital maranhense, sem aldeia, mas com núcleo de resistência atuante, e tecemos vivências para compreendermos possibilidades de uma estética fora do corpo colonizado. A lógica Tremembé é pautada nos saberes ancestrais, por suas lideranças, com modo de vida próprio, que inclui comportamentos compassivos tais como “os artistas almoçam mesmo quando a comida é pouca...”

   Continuamos o processo ao cuidarmos da condição sensível do corpo em ‘Popotitodó”, encenando as noções de corpo próprio, quando conseguimos perceber que os infantes e as crianças chegam... As crianças desabituadas de elementos estéticos longe dos modelos copiados assumem iniciais posturas de enojo, complexa rede de ações, contextos, e concepções específicas das produções que se ocupam das formas.
Hipopótamo e Placenta, personagens múltiplos 
    
     No entanto, milagres são cotidianos e a sensibilidade ainda está tendo presença potente. Pergunto-me se continuará com a próxima semana sendo decisiva para os corpos própriosPara nossos infantes o que lhes aguarda? Uma investigação na busca de estética descolonizada ou a pesquisa-ensino-extensão se transformarão em cópias?
    Que o espírito compassivo da comunidade Tremembé consiga derrotar o obscurantismo.        

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Levem as crianças!

 
               A ganância pelo poder está destruindo tudo. O corpo permanece estagnado num lugar fixo. O confronto com os locais subjetivos dos nenês, nossas condições sensíveis, abrem canais receptivos. Conexão Dança em sua 10ª edição.   
Design por  Diego Dourado 
Um festival sem caráter competitivo com procedimentos e referências diversificadas. 
Faço convite expresso: creches, escolas e cuidadores preocupados com as construções singulares.
LEVEM AS CRIANÇAS! 
Popotitodó, criação para corpos em sensibilidade
Conexão Dança 2018
quarta_dia 3 outubro
15 horas_teatro Arthur Azevedo   
Grupo Teatrodança e o pensador Friedrich Nietzsche dançam a seriedade com que a criança brinca. 
Parou de brincar? Recomece.  
Quem se ajuntou para produzir Popotitidó - 
eu, Eline Cunha, João Simas, Centro Ozaka Origami, Marcos Ferreira, Diego Dourado, Marcos Caldas  
                                                  VAI PERDER?