quinta-feira, 16 de maio de 2019

Berro pelo avesso

    O livro Quitéria & Inês está em fase de produção pela Quintal Edições. Como foi feita a escolha? Pelo Mulherio das Letras, coletivo digital que propõe relacionar os sentimentos femininos que escrevem, e escrevemos bastante, vejam que este é o quinto livro que escrevinho, como Tia Júlia e o Escrevinhador, autoria de Mario Vargas Llosa.
    A ideia seria trabalhar todo o projeto do livro somente com mulheres. Aí, veio a mineira Quintal como mãos lambuzadas para apertar-se com a maranhense teatrodançante. O aperto está sendo bacana, já começamos revisões e diagramações.  
   Agora, caríssimas leitoras, produzir o livro e o espetáculo com um só prêmio (no caso o Edital Prêmio Literário da SECMA-2018, na categoria dramaturgia, intitulado Apolônia Pinto, hiper pioneira nas lutas pelas artes do corpo e da cena) se faz necessária diversificada consciência corporal que permita músculos e ossos flexíveis o suficiente para conseguir o milagre de transformar dinheiro pouco em larga sabedoria. Conseguiremos porque ninguém há de nos calar outra vez.
  É berrando que tenho conseguido que me escutem. Ou pensa que viver numa ilha é fácil? Ser mulher nordestina e não se submeter é fácil? Envelhecer com dignidade e se impondo aos falsetes é fácil? Só enlouquecendo é possível.
  Daqui para frente terei um novo amigo de cabeceira, Carl G. Jung, que irá me fazer sentar o rabo para entender sua simbologia, em suas funções de sonhos e imagens simbólicas, quando organiza o psíquico na relevância do corpo global, carne potente.
   Não sou quiromante contudo creio nas forças cósmicas.
   Fora do corpo_terra agentes de destruição das artes e ciências.  
   Que venham as forças.
   


Ensaio-Quitéria | Marcos Caldas 


 

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Quem é Inês?

                 Ela se chamava Inês Etienne Romeu.

Tatiane Soares, exercício, março 2019  


Eu e Tatiane, personagens título  
Trouxe as dolorosas similaridades dos encarceramentos do século XVIII com o regime ditatorial brasileiro, quando através dos trabalhos da Comissão da Verdade consegui chegar aos links com relatos dos atos violentos a que foram submetidas. Como arquétipo do período separei a única sobrevivente da Casa da Morte, centro de tortura clandestino da ditadura. Inês foi detida em São Paulo, sob a acusação de participar do sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher, ocorrido meses antes no Rio de Janeiro, capturada por uma equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury. 
Durante os 96 dias em que esteve presa, Inês foi torturada, humilhada e estuprada, com três tentativas de suicídio durante o cárcere. Só foi libertada quando fingiu concordar com dois de seus algozes para trabalhar como infiltrada para o Centro de Informações do Exército. Libertada, doente, foi jogada na casa de uma irmã, em Belo Horizonte, sendo levada pela família a um hospital, onde sua prisão foi oficializada. Condenada à prisão perpétua, ficou presa até 1979, quando tornou público todo seu martírio.
Nesta semana o livro passou pela criteriosa revisão da escritora e mediadora Talita Guimarães, que além do trabalho me presenteou com crítica sobre “Quitéria & Inês”, e compartilho com vocês, pois é fortalecedor para que novas dramaturgias surjam.   
                    
 ‘Parabéns pelo belo e forte trabalho, que exigiu muita coragem e disposição para ir fundo nas pesquisas e ser capaz de transformar em uma voz artística tão potente e necessária, que não só evoca a força de todas as mulheres massacradas ao longo da história, como as mantém presentes nessa luta diária por justiça e humanidade que temos travado. Tanto a pesquisa quanto o roteiro do espetáculo me comoveram muito pelo resgate histórico, que reflete o compromisso com a batalha contra o esquecimento e apagamento, trabalho que quando a arte executa tão bem como a que você produz, conversa exatamente com o nosso lugar sensível que aprende a transformar essas realidades.’

terça-feira, 19 de março de 2019

Quem é Quitéria?

     Vivenciar o teatro antropológico do Odin Teatret será sempre um desafio profundo que me obriga às reflexões profundas. Anterior à minha experiência inesquecível com Julia Varley e Eugenio Barba passei pelos sistemas propostos por Angel e Klauss Vianna e a Fondación Río Abierto, exigentes ao extremo para que sejamos corpos provocadores, super necessários nos períodos obscuros que estamos atravessando, que seguramente, será apenas um atravessamento. 
     A personagem Quitéria, arquétipo investigado e praticado pela carne que me constitui, traz a violência desmedida contra o feminino feminino, ambientada no século XVIII.
     Na pesquisa fui auxiliada pelas mentes abertas de historiadoras maranhenses, especialmente pela dedicação incansável de Maria da Glória Guimarães Correia. Glorinha, como é conhecida, me propiciou também um ensinamento para considerar nesta vida. Ao fazer contato com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul a chefe do departamento de história corrigiu meu pedido, para que me ajudassem com a pesquisa, indicando que procurasse aqui, na minha ilha predileta, a maior autoridade no assunto sobre mulheres trancafiadas de modo criminoso e forçado em nosso passado tristemente não reconhecido. Pobreza no pensamento que desconsidera que o melhor esteja em nossa aldeia, pedi desculpas pela ignorância, e retomei o contato com uma amiga de juventude artística. Torço para que estejamos juntas em novos processos.
     Quem estiver lendo informe-se sobre quem foi Quitéria, peça desculpas se não souber até agora quem é ela, e louve as produções maranhenses. Não se envergonhe em pedir desculpas.
Ensaio "Quitéria & Inês" (Marcos Caldas, 15/03/2019) 
  
                            

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

A luz da candeia


Espirais | EMEM 2005
Candeia acesa como conforto.
Retomada de antiga parceria.
Em períodos de degenerescência, quando atos malditos são impostos ao país e emanações terríveis se espalham, acontecem desgraças anunciadas e súbitas. Nesse turbilhão tenebroso chegou esta criatura, ela está aí na imagem de "Espirais', que apresentava em 2005 premonições sobre a realidade futura, agora presente.  
Práticas iniciais | Associação Cultural | foto Adriano Yasuhiro 

Tatiane, veio pé ante pé, mão sobre mão, para enfrentar a dor e o medo de “Quitéria & Inês”, arquétipos femininos encarnados em livro e espetáculo, mais um processo que cultua a dramaturgia da alteridade, dentro da proposta do Teatrodança de atingir um estado de real cooperação que acredita nas diferenças.

  

Júlia e Tatiane | texto encarnado


Assim, vamos compondo nossas criações, artistas que se misturam na mesma carne, e umas e outras são beneficiadas pelas trocas de seus saberes e fazeres. 
Mais seres virão por aí, já estão participando, mas, por enquanto, saudemos o sentimento feminino na Tatiane.
Ela traz a luz da candeia. 
Que fique acesa.                   


quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Morta de fome, mas consegui financiamento!


      Ora, ora.
 Sou diretora, atuadora, pesquisadora e educadora em coletivo que sobrevive por mais de três décadas em mercado ainda emergente para as artes do corpo porque acredito que as desilusões e os modismos não abatem a coletividade pela força de suas investigações.
 A construção de dramaturgias do corpo, nas cenas e nas pedagogias, como objeto das pesquisas do Grupo Teatrodança me fez sobreviver e configurar o erudito e o popular com a cultura assumindo concepções complementares.
 Digo que a estratégia inovadora para comportamentos pacíficos, ‘Meninilha’ e ‘Ilhadas', trazem organicidades que se encarnam para falar da violência contra o sentimento feminino, seja nos seres ou nas identidades transitórias. A trilogia se reporta não simplesmente ao gênero, e sim à emoção compassiva que está presente em todos os seres humanos. A perda irreparável deste sentimento nos faz mergulhar em mundos individualistas e perder a energia que move as ações criativas, afetivas e coletivas.
 No livro ‘LulaLivre’ o escritor Ferréz diz como a ‘boa artista morre de fome mas não lambe bota do estado’. Por isso entro em editais públicos. Minha alma permanece. A carne fica incólume.
 No Edital Prêmio Literário da Secretaria da Cultura do Maranhão a dramaturgia que se intitula com os nomes das mulheres trancafiadas e torturadas, as desgraçadas Quitéria e Inês, recebeu o financiamento para que a publicação do livro e a produção do espetáculo seja materializada. O mestre zen Kaz Sensei me ensinou como milagres acontecem a cada momento. Irei multiplicar o valor, embora esta ação precise se fortalecer urgentemente no ideal de nação.    
 Caríssimo Marc Ferréz, estou conseguindo salvar lembranças para as gerações posteriores. 
 Para que na lembrança delas as Quitérias e Inêses não se diluam. Quem sabe as Júlias fiquem na memória?    
Prêmio Apolônia Pinto-Peça Teatral 20/12/2018

Vamos ao prêmio 20/12/2018

Narrativas sobre a trilogia 20/12/2018
  

domingo, 25 de novembro de 2018

corpo_voz-crianças


Convite para apresentação de EP que será postado na plataforma Spotify  
Criançada com acesso livre!
Algumas respostas...

-Do que se trata o corpo_ voz- sonoridades para crianças?
Considerando a infância como dotada de inteligência criativa propomos o corpo que vivencia atuação com sonoridade. Com financiamento feito pelo próprio coletivo estamos gravando e mixando, com apoio do musicista João Simas, as composições musicais, especialmente de Eline Cunha, reconhecida guerreira da área sonora e integrante do Teatrodança desde 1998, presentes nos trabalhos “Bicho solto buriti bravo”, “O cerro do Jarau”, O Baile das Lavandeiras”, “Mundo imaginário de Juju Carrapeta”, e o pioneiro construído para infantes intitulado “Popotitodó”. Convidamos para que experimentem apresentação de EP na plataforma Spotify!                            
-Processo do registro das partituras de corpo e voz para crianças?
A ideia surgiu em janeiro quando vimos que “Bicho solto” estaria completando 20 anos da estreia no Rio de Janeiro. Percebemos a urgente necessidade de documentar os processos não como literatura dramatúrgica, como tenho realizado através da seleção em editais, mas postando em canal digital para que as crianças, e cuidadores, tenham livre acesso. Resgatamos as musicalidades, feitas novas partituras passamos para as práticas corporais, e convidamos mulheres que aceitaram nosso convite para trabalhar grátis em prol do bem comum. LABORARTE e BURITECO aceitaram carinhosamente as apresentações, e agora lá vamos nós com comidinhas veganas e regionais, brincadeiras e musicalidades para encantar as sensibilidades do corpo.   
                      

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Autenticidade imperativa


 
Nesta vida persisto como uma virose dançante. E ainda consigo forçar entendimentos para serem pensados. Por exemplo, quando trabalhei com Julia Varley, mestra maior do teatro antropológico, percebi sua briga pelo lugar feminino da dramaturgia, e comprei a briga. Basta observar na ilha onde escolhi viver até agora (períodos obscuros nos aguardam...)
Para sobreviver faço parcerias com quem aceita. Passe os olhos em nossa trajetória e vai encontrar artistas de variadas procedências e vivências. No próximo mês retornaremos ao LABORARTE, passos iniciais dados em 1977 quando estive na fundação, e agora pelas mãos de Rosa Reis e suas filhas multiculturais.    
No final dos anos 1990 fechei a Oficina do Corpo e corri mundos. De lá para cá trabalho em periferias. Quando a Oficina foi fechada coreografamos Vladimir Maiakovski para dizer como necessariamente todo dia o sol se levanta, e com Gregório de Matos montei o trabalho Espirais, 2004, considerando a cena para discussão dos problemas coletivos.
A tristeza em perceber atitudes de fuga, apatia, desmonte. Sem forças contra o poder do capital, que nos tornou um país dependente, leiloado, destruído, espoliado.
Na atualidade perseveramos vendo o martírio das culturas que salvam. O imaginário das crianças preservados, sem lamentações. Se somos embragadas hoje, amanhã se dança nua; se põe tarja se coreografa de novo. A cena para além da representação.
Minha compaixão irada vai quem produz mediocridades.   
Mulher bárbara é o nosso tempo que se abate sobre nós, na trilha de Christa Wolf, e sou uma. Porque virão outras depois de nós...

Janela Cultural bloco 1
https://www.youtube.com/watch?v=J0-iGaJSABA&t=41s

Janela Cultural bloco 2
https://www.youtube.com/watch?v=mR0RbAlDxK8&feature=youtu.be

Em agosto deste ano jupiteriano, como boa leonina, ganhei esta conversa registrada pela Universidade FM, a rádio que toca a nós todas.